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Enquanto investigava as anomalias temporais, a Emissária de Xelor encontrou um jovem Zobal em Amakna capaz de prever acontecimentos antes que eles efetivamente aconteçam. No entanto, esse estranho encontro parecia estar além do âmbito de sua investigação, mesmo tendo todos os ingredientes do caso em questão. Ela informou Mago Ax de que o caso da criança envolvia tanto uma desregulação do tempo quanto o domínio dos sonhos e pesadelos

Sonhos e histórias são sombras de verdades que perduram depois que os meros fatos viram cinzas e são esquecidos. Mas o sonho deve ser alimentado para não ficar enfraquecido. Suas cores empalidecem, seus detalhes desbotam, seus símbolos perdem o sentido. O futuro parece sombrio. Os mortais deixarão de sonhar um dia... As regiões oníricas que estão sob minha guarda estarão, então, em grande perigo. Com a ajuda de aventureiros talentosos, eu preciso fazer de tudo para evitar isso.

Eu sou o mestre dos sonhos.

O Mago Ax me falou sobre uma criança em Amakna…

Seus sonhos teriam contornos mais precisos do que o normal. Mais do que sombras, eles seriam reflexos de verdades. Se for verdade, ele pode ter um dom raro, especialmente para um mortal. Ou pode ter algum tipo de anomalia que pode sumir a qualquer instante, da mesma forma que apareceu. O que quer que aconteça, os sonhos sempre deixam uma marca sutil da passagem deles, uma vaga lembrança que pode ser decifrada por quem sabe fabricar sonhos…

*****

Durante a minha viagem, repentinamente, eu o vi claramente, como um farol bem no meio da noite. Abro minhas asas um pouco mais para poder ser levado inteiramente pelas ondas dos sonhos dos dozeanos. A aceleração me pegou de tal forma que me senti fisgado. As correntes me levavam diretamente até ele. Ele devia estar em pleno sono paradoxal. Houve uma época em que as ondas de sonhos dos mortais eram todas tão poderosas quanto esta. Uma sensação que me parecia ser o mais próximo possível do que os dozeanos chamam de bem-estar. Eu me deixava levar em alta velocidade, mas suavemente, e começava a entender um pouco melhor por que tantos deles buscavam essa calmaria.

Uma luz forte atravessava a casinha desse campo extremamente silencioso. Eu era o único que conseguia vê-la. Meu estado de transcendência me possibilitou atravessar as paredes sem fazer barulho e flutuar sobre a cama da criança sem que ninguém pudesse detectar a minha presença. Eu era apenas um sonho em meio a tantos outros. Eu ainda nem o havia examinado e já não tinha mais a menor dúvida sobre a acuidade onírica desse jovem Zobal. Já faz um tempo que os sonhos dos dozeanos têm se mostrado mais agudos. Normalmente, tratava-se de uma massa homogênea com raras variantes, alguns picos distintivos que continuavam próximos desse aglomerado de sonhos, mas, nos últimos tempos, eu conseguia observar um tipo de agitação inexplicável. Eu via variações pontudas, mas confusas. A luz onírica desse garoto era tão límpida, tão pura quanto a água da fonte que, após ter percorrido kilokametros debaixo da terra, cai como uma cachoeira e nos envolve em um banho agradável.

Smuti Torranço estava deitado na cama. Suas pálpebras palpitavam. Aos meus olhos, ele brilhava, parecia uma forma precisa, compacta, que eu podia ver através das paredes e dos lençóis. Para “revelá-lo”, eu não precisava de nada além de um leve suspiro dragontino do qual eu sou, se não for o único, um dos poucos a conhecer o segredo. Tal qual a penugem de um dente-de-leão revela seu coração quando é assoprada, um véu se levantou e pude observar os sonhos da criança .

*****

É difícil colocar palavras no indefinível. Os sonhos aparecem em várias dimensões, com sentidos que não são providos a todos os seres. O que eu vi naquela noite era semelhante a um olho do furacão. Eu tentei avançar nessa visão, ver mais longe, compreender de onde nasceu esse furacão incontrolável. Eu tinha a impressão de lutar contra uma força comparável àquela que repele dois ímãs. Apesar da minha determinação, eu avançava muito pouco e estava ficando cansado. Alguns sonhos são prisioneiros de seu próprio pesadelo, e acontece que o sonhador é a chave dele. Eu sussurrei no ouvido de Smuti: “Quando um sonho insiste muito em bater na porta da consciência, é melhor deixá-lo entrar...”

A criança murmurou: “OLEDASEP...”

O vento desapareceu furtivamente, permitindo que eu tivesse tempo para ver um crisol no qual colocavam areia. Imediatamente, o tornado retornou e me jogou em uma nuvem de sedimentos. Parecia-me impossível agora voltar ao olho do furacão. Mas outras imagens vieram até mim. Pude sentir uma presença... não! Muitas. Silhuetas escuras. Maus agouros. As sombras pareciam tão imperturbáveis quanto montanhas contra o vento. As criaturas pareciam cavalgar montarias tão demoníacas quanto elas. Olhos brilhantes e maliciosos se abriram e frases estrondosas foram disparadas.

— Já passou da hora de colher o que plantamos! — entoou uma voz impaciente e nasalada.

— Está na hora de partir para o ataque! — clamou uma voz autoritária.

— Não há motivos para se precipitar. Nosso trabalho dará frutos em breve. — ponderou uma voz impassível.

— Todos eles serão meus escravos! — afirmou uma voz decidida.

Escutei o descontentamento de todo um povo e gritos enquanto suas casas queimavam. Percebi uma soberana abatida sobre um trono. Uma nova voz me arrancou desse sonho. Como se ela estivesse em outro lugar... mais perto. Ela falou:

— Ela atravessa o tempo. Como um eco entre diferentes épocas. Seu significado ainda não chegou até você. É apenas uma questão de tempo. O fim de um ciclo e o começo de outro. Imagine um loop que se modula e se modela ao longo das voltas. Um déjà-vu, mas não idêntico ao anterior. A areia continua escorrendo. O último grão trará a verdade...

Nesse momento, eu me retirei da atração do sonho de Smuti Torranço, convencido de que a voz vinha do quarto dele. Olhei para um lado, depois para o outro, antes de olhar para trás. Em uma prateleira, acima de mim, estava uma boneca com uma máscara de madeira rudimentar. Ela parecia me observar. O mais estranho é que, apesar do rosto sem expressão, por um momento eu acreditei... que ela estava sorrindo.

Draconiros estará esperando por vocês na atualização de dezembro.

Até lá… tenham bons sonhos!

Leia: ELIOCALIPSE: A CRIANÇA DA LUZ (1/2)