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Há pouco tempo, uma nova ameaça surgiu no Mundo dos Doze. Na costa de Pandala, a nordeste da Ilha de Grobe… É lá que eles agem, nas sombras. Ou melhor, nas brumas… Dizem que é impossível sair ileso do covil deles. No mínimo, se sai transformado. Para uns, uma boa razão para se manter afastado. Para outros, um ótimo argumento para ir encontrá-los…

Totalmente esticadas, as peles de Leitões dos tambores vibravam com os golpes das clavas, produzindo sons primitivos, quase hipnotizantes. Em roda, os colossos de pedra executavam uma dança perfeitamente sincronizada. Parecia até um ritual xamânico, talvez até sacrificial.

Na verdade, era só uma comemoração dos Smagadores das Planícies de Cania.

Uma festinha para a qual Operdão não tinha sido convidado. Mais uma vez…

O eco das risadas chegava até as profundezas da sua gruta, como se fosse um deboche. Os tremores causados pelos saltos dos seus companheiros ressoavam nas pedras. E no seu coração…

Operdão era um Smagador Polido da ilha de Otomai. E o mínimo que se pode dizer é que ele honrava o seu nome. Desde que virou um Smagabola, ele passava o tempo todo se desculpando sem motivo. Quando alguém o empurrava: oh, perdão… Quando precisava tirar uma lesma da verdura que ia colher: oh, perdão… Quando tropeçava numa pedra: oh, perdão…

Dizem até que essa foi a primeira coisa que ele falou para sua mãe quando nasceu. E por isso ela decidiu chamá-lo assim…
 

Operdão sofria de uma ausência total de autoconfiança e só andava pelo caminho das pedras. Vale dizer que a natureza não foi tão boa com ele. O seu físico fraquinho e sua voz fininha o transformavam na verdadeira chacota da comunidade dos Smagadores… Muitas vezes lhe disseram que ele deveria voltar para sua ilha natal. Mas alguma coisa o impedia. Ou melhor, alguém. Dyamsse…  Uma Smagadora incrivelmente linda. Dyamsse tinha a pedra lisa e perolada. O cume da sua cabeça era brilhante. Parecia uma pedra preciosa... Quando ela andava, a terra quase não tremia. Sua beleza era a mais esmagadora dentre as Smagadoras…

Mas Dyamsse tinha um coração de pedra… Totalmente indiferente às demonstrações de afeto de Operdão, ela alegremente se aproveitava da situação, tornando-o seu fiel e devotado serviçal. Quando conseguia o que queria, ela passava a ignorá-lo e ia se aconchegar nos braços rochosos de Pavecésar, um Smagador Lendário de três kametros de altura, campeão de lançamento de Dopels e queridinho de todas as Smagadoras.

"Se eu fosse tão alto, forte e rochoso quanto um Smagador Lendário... Dyamsse se apaixonaria por mim, sem dúvida..."

Todo encolhido em um cantinho da sua gruta, Operdão sentia pena de si mesmo, enquanto lá fora o clima era de festa.

— Ah, fala sério, que cara é essa?

— Tem… tem alguém aí?

— Aqui, cabeça de sílex.
 

Um Camundongo Verde roía um Clakoss duas vezes maior do que ele, fazendo um barulho horroroso. Sua pelagem se camuflava na vegetação que revestia entrada da gruta.

— Humpf, glurp!

Ele engoliu um pedaço enorme, e dava até para adivinhar o formato enquanto ele deslizava lentamente garganta abaixo.

— O que você quer de mim? Também quer me zoar?

— De jeito nenhum, por que é que eu faria isso?

— Porque é o que todo mundo faz…

— Ah! E por quê?

Operdão apontou para si mesmo, da cabeça aos pés.

— Você quer que eu desenhe?

— Tá, entendi… É verdade que você tá mais pra um Gramarão do que um Smagador.

— E ainda tenho voz de taquara rachada. Até a sua é mais viril.

— Humpf, glurp!

A barriga do camundongo instantaneamente dobrou de tamanho.

— Cê já pensou em ir falar com um feiticeiro? Eu tinha um amigo que não aguentava mais ser um Camundongo Verde. Um cara mergulhou ele num óleo, depois na água e PUF! Ele se transformou em um Krakol.

— Mas… Eu não tenho vontade de virar um Krakol. Isso não faz sentido!

— No que você queria se transformar?

— Eu nunca disse que queria me transformar, para com isso! Bom... É… Pra falar a verdade, a única coisa que eu queria ser é um Smagador Lendário. Igual ao monumento megalítico que é o Pavecésar.

— Ah, tá. Mas nesse caso, só se você falar com os deuses. A menos que... Os demônios! É claro! Eles podem fazer de você uma criatura lendária, com certeza!

— Os demônios? Mas que demônios?

— Você já ouviu falar dos Devastadores, né?

— Aham, um pouco… Eu sei que eles andam pela ilha de Grobe e que eles possuem os Dozeanos que acabam ficando super fodões e… espera aí? Você tá me dizendo que eu preciso deixar eles me possuírem?

— Shim, tô dijendo isho shim! Humpf, glurp! Eita, esse pedaço tava grande.

— Mas… Essa é uma ÓTIMA ideia!

Operdão se levantou num pulo. Os músculos do seu rosto até doeram, pois ele não tinha mais o costume de sorrir.

Eu vou pro Atol dos Possuídos me entregar aos Devastadores! Querendo ou não, eu não tenho nada a perder! Quando eu voltar, vou estar tão forte e tão bombadão que a Dyamsse não vai conseguir resistir! Mal posso esperar pra ver a cara do Pavecésar quando eu colocar meu braço monstrão na fuça dele… Hahaha!

Operdão colocou uma garrafa de água e um pedaço de sanduíche velho e duro como uma pedra dentro da mochila e saiu da gruta, quase esmagando o camundongo no processo.

— Oh, perdão!

— Tudo sherto. Boa shorte, amigo! Humpf, glurp!

O caminho que levava à ilha de Grobe era longo e perigoso para um Smagador que nunca tinha colocado o cascalho para fora de casa. Durante a viagem, Operdão se desculpou uma boa centena de vezes. A efervescência de Astrub foi um verdadeiro tormento para ele. Felizmente, Pandala lhe ofereceu um pouco de sossego. Lá ele descobriu um lugar relaxante e mágico, um local de mil facetas, cheio de descobertas. Até pensou que um dia se mudaria para lá. Para esse paraíso, onde ele formaria uma família com a Dyamsse…

Logo ele iria provar que era dotado de uma grande coragem. Se jogar na boca do Milobo: mais fácil falar do que fazer. Operdão nunca tinha visto um Devastador. Mas ele já tinha ouvido falar… O ritual de possessão que descreveram para ele tinha feito seus líquens se arrepiarem. Operdão sentia a angústia comprimindo sua garganta. Em vários momentos o Smagador quase voltou atrás. Afinal de contas, se Dyamsse não o amava como ele era, talvez isso quisesse dizer que ela simplesmente não o merecia…

"Pff... Deixa de besteira, Operdão! É tarde demais pra mudar de ideia, chega de mimimi!", ele dizia a si mesmo.

A chave da felicidade estava finalmente ao alcance das suas mãos e ele não tinha escolha a não ser ir até o fim. Na pior das hipóteses, o que poderia acontecer? Ser devorado pelos demônios? Ele nunca esteve tão perto do seu sonho…

À medida em que se aproximava do nordeste, em direção à Terradala, a tensão se tornava palpável. Ele ainda estava longe do paraíso…

"Ei! Você! Se você não tiver medo de fantasmas eu posso te levar até a ilha maldita… Com emoção garantida!", saudou-o um Pandawa roliço com uma faixa cobrindo um olho certamente ausente.

Operdão acenou timidamente com a cabeça. A travessia foi a mais tranquila possível.

— Me diga, quando tivermos atracado, como eu posso chegar até o Atol dos Possuídos?

— Pela deusa! Então você é o destemido mesmo, hein… O atol fica do lado do Monte das Tumbas. Mas tenha cuidado, os locais são… digamos… um pouco invasivos.

A embarcação aportou pesadamente em uma praia envolvida pela bruma. Mal Operdão colocou o pé na ilha e o Barqueiro já voltou a velejar. Ele foi recebido por um exército de espectros pandalianos de uma agressividade sem precedentes. Depois de se desculpar por ter desembarcado nas terras deles, Operdão fugiu, deslizando entre as estelas funerárias e os altares de oração. Ele chegou sem fôlego aos pés do famoso Monte das Tumbas. Lá onde tudo iria acontecer…

"Vamos, Operdão… Lembre-se do seu paraíso, da Dyamsse e você, dos seus futuros filhinhos. Tudo isso vale a pena, não vale?"

 

O Smagador soltou um longo suspiro pra ganhar coragem e iniciou a subida. No topo, o Fogo da Maldição do Dark Vlad ardia sobre uma terra em que só havia morte e desolação. Ao longe, através da bruma, uma forma com aspecto de monstro chamou sua atenção. Um navio com a proa cercada de caninos exerceu sobre ele uma atração irresistível. Ele subiu a bordo sem nem pestanejar.

O trajeto foi curto e terminou em um lugar demoníaco onde se encontravam chifres negros monumentais. Outros barcos parecidos com o que levava ele tinham bocas escancaradas e estavam amarrados em cais de corais negros. Pareciam ser feitos de carne, quase orgânicos. No chão, estranhos símbolos marcados na terra atraíram sua atenção.

Lá estava ele: o Atol dos Possuídos.

"Vá ao Pandamonium. Lá você vai cair sobre um bando de Devastadores prontos para possuir qualquer coisa que se mova! Mas atenção! Para chegar lá, primeiro você vai ter que enfrentar um deles e recuperar um sinal cabalístico dos seus restos mortais…"

As palavras do barqueiro ainda ressoavam na sua mente. Por sorte, Operdão não precisou enfrentar um Devastador. Ali, a seus pés, estava um sinal cabalístico esperando para ser recolhido. Uma coincidência, talvez? Ou seria o sinal incontestável de que esse era seu destino?

Diante dele, uma construção monumental parecia sair das profundezas da terra. Operdão se encheu de coragem e adentrou o que parecia um anfiteatro. O Barqueiro estava certo. Lá estavam muitos Devastadores, em plena reunião oficial. Todos os olhares se viraram para ele quando ele começou a pigarrear.

— É… Com licença… É aqui mesmo o departamento das possessões?

Os Devastadores caíram todos na gargalhada.

— Essa é boa! Isso nunca fizeram! — exclamou o mais imponente entre eles.

Mecanicamente, os Devastadores formaram um círculo em torno do simbolo traçado no chão e convidaram Operdão a ficar no centro.

Um demônio entoou um estranho lamento enquanto apontava as palmas das duas mãos com seus dedos longilíneos em direção aos céus. Seus olhos brilhavam. Os outros demônios se juntaram a ele, primeiro murmurando, depois levantando mais e mais a voz…

Uma bruma avermelhada emanava da terra e envolveu Operdão como um lençol. O Smagador não enxergava mais nada, somente as lamentações dos demônios chegavam aos seus ouvidos. Ele sentia alguma coisa queimando na parte mais profunda do seu ser. Uma raiva quase animal. Um sentimento que ele conhecia muito bem de quando foi vítima da zombaria dos outros, mas intensificado ao extremo desta vez. Uma dor lancinante irradiava do seu braço direito a ponto de levá-lo a se ajoelhar de exaustão. Operdão teve a impressão de que dezenas de punhais atravessavam o seu corpo. Um estranho barulho chamou sua atenção. Como um saco de cascalho sendo jogado no chão. Ele passou a mão na barriga e sentiu a pedra desmoronar sob os seus dedos.

Sua transformação havia começado

.

Durante longos minutos seus gritos de dor se confundiram com a cantoria dos demônios. Quando de repente: a calmaria. A fumaça púrpura que o cegava se foi como que aspirada pela terra. Operdão ficou lá, imóvel, os olhos fechados.

"Abra os olhos, pedregulho!", gritou um dos Devastadores.

Operdão obedeceu e, estupefato, conheceu sua nova aparência. Seu braço direito tinha triplicado de tamanho e algo que parecia uma bola de lava se alojava nele. Uma crista de pontas afiadas percorria suas costas passando pela nuca. Ele se sentia claramente maior, mais ereto, mais sólido.

Como uma rocha.

No caminho de volta, Operdão estava com o peito estufado. O que significava essa estranha sensação? Era agradável. Ela lhe fazia encher o peito, levantar a cabeça e dar passos largos. Então e isso que é ser confiante? Acreditar em si mesmo? Que euforia! Os transeuntes lhe davam passagem, alguns até se escondiam de medo dele. Operdão estava se achando. Suas costas curvadas e seu olhar Awawzinho pidão agora não passavam de uma longínqua lembrança.

Pela primeira vez na vida, ele estava no topo.

Depois de muitos dias de caminhada, o burburinho e a tagarelice de seus conterrâneos lhe mostraram que ele estava chegando em casa. Era comum que as festas dos Smagadores durassem dias e dias. Quando chegou, encontrou-os reunidos em volta de uma fogueira. Pavecésar tocava o último sucesso do Grobeto Kralos no ukulele sob os olhares apaixonados de Dyamsse.

— Se um outro pedregulho aparecer, na sua ruuua… TOING!

De tão chocado, Pavecésar arrebentou uma corda do seu instrumento. Todos os Smagadores olharam para Operdão, estupefatos.

— Operdão? Mas... o que é que aconteceu com você?? — Perguntou um Smagador das Planícies.

— Cara, você tá trincado! — Acrescentou um outro.

— Eu nunca vi um braço tão rochoso assim… — Disse Dyamsse piscando vigorosamente seus intermináveis cílios.

O encanto funcionou. Operdão se sentia nas nuvens. Ele passou pelo meio da reunião contraindo propositalmente seus músculos. Quando estava quase a um metro de Dyamsse, sentiu seu coração palpitar dentro do peito. Como se ele também tivesse dobrado de tamanho.

Ele lhe estendeu uma flor que tinha colhido no caminho. Uma linda rosa com pétalas de um vermelho flamejante. Querendo apanhá-la, Bernadette espetou o dedo em um dos espinhos.

"Oh! Perdão!"

 

Quase inaudível e cristalina, a voz de Operdão contrastava com seu físico colossal. O ritual não teve efeito nenhum sobre isso… Dyamsse, Pavecésar e os outros começaram a rir incontrolavelmente. O infeliz Smagador teve a impressão de que seu corpo inteiro estava caindo aos pedaços, levando com eles sua autoconfiança recém-nascida.

O que ele tinha feito para merecer isso? Nunca seria amado e respeitado do jeito que era…?

Operdão estava prestes a descobrir.

 

 

Continua…